24/09/2011

O último voo do Flamingo - Mia Couto

(Editora: Companhia das Letras, 232 folhas, 46,00 reais)


Em O último voo do Flamingo, romance de Mia Couto, a editora optou por manter, inclusive no título, a ortografia vigente em Moçambique. É uma obra em que pulsa uma grande força humanista: depois da guerra de Independência e dos anos de guerrilha, Moçambique vive um momento de reestruturação social e política.

A obra é abordagem sobre o período pós-guerra civil no país, uma ficção sobre os tempos em que estiveram em Moçambique soldados da ONU integrados na missão de manutenção de paz. O romance narra estranhos acontecimentos de uma pequena vila imaginária, Tizangara, ao sul do país.

O livro começa com um fato insólito: um pênis é encontrado no meio da rua de Tizangara. Mais um soldado das Nações Unidas havia explodido e aquilo era a única coisa que restara dele.

A vila está cercada por um mistério: corpos de soldados estrangeiros que começam, subitamente, a explodir. Um oficial das Nações Unidas, o italiano Massimo Risi, é destacado para investigar o caso. Tudo é contado pelo tradutor destacado pelos poderes oficiais da vila para acompanhar o italiano. Bem, quase tudo.
À medida que os fatos se sucedem, outras vozes ganham espaço no texto, deslocando-se o foco narrativo para outros personagens: Massimo Risi, Estêvão Jonas - o administrador da vila -, a velha-moça Temporina, a prostituta Ana Deusqueira, o feiticeiro Zeca Andorinho e o velho Sulplício, o pai do narrador. Eles apresentam suas versões dos fatos, ou contam sonhos ou lembranças essenciais para a compreensão dos fatos – vôos sobre o tempo dos acontecimentos e o tempo da memória.

O mistério adensa-se. Os soldados da paz morreram ou foram mortos? Os outros personagens, dona Ermelinda (a “administratriz”), Chupanga (o adjunto do administrador) e padre Muhando completam a atmosfera de Tizungara, envolta em verdade e ficção, realidade e magia, natureza e sobrenatural, o mundo dos vivos e o mundo dos mortos; e um presente que balança entre a força dos antepassados e a ausência de futuro.

Com toda a sabedoria da velha África, Mia Couto revela-nos, uma vez mais - na ironia, no sentido de humor, no espírito crítico, na palavra cáustica e no comentário acerado, no recurso à metáfora e na carga cheia de simbolismo da frase -, o seu absoluto domínio da escrita e da língua portuguesas, o conhecimento e o amor profundos que tem e dedica a esse belíssimo e atormentado continente, neste novo romance, O Último Voo do Flamingo.

O autor sabe como ninguém manejar seu discurso literário ora fantástico, ora poético, ora divertido e irônico:

"Há aqueles que nascem com defeito. Eu nasci por defeito. Explico: no meu parto não me extraíram todo, por inteiro. Parte de mim ficou lá, grudada nas entranhas de minha mãe. Tanto isso aconteceu que ela não me alcançava ver: olhava e não me enxergava. Essa parte de mim que estava nela me roubava de sua visão. Ela não se conformava:
- Sou cega de si, mas hei-de encontrar modos de lhe ver!
A vida é assim: peixe vivo, mas só vive no correr da água. Quem quer prender esse peixe tem que o matar. Só assim o possui em mão. Falo de tempo, falo de água. Os filhos se parecem com água andante, o irrecuperável curso do tempo. Um rio tem data de nascimento?"
A narrativa é poética, carregada de lirismo. Entre várias seqüências, percebemos aquela em que Massimo Risi passa por um terreno minado como “Jesus se deslocou sobre as águas”. Podemos também acompanhar a mãe do tradutor desfiando a estória dos flamingos que empurravam o sol para que o dia chegasse ao outro lado do mundo.

Enfim, a obra redimensiona o olhar sobre Moçambique, um dos países mais pobres do mundo, recém-saído de três décadas de guerra civil fratricida, que matou ao menos 16 milhões de pessoas nesse período (em 2000, quando o livro foi publicado, comemorava-se os 25 anos de independência de Moçambique).

Mia Couto soube criar o suspense para que passemos toda a narrativa tentando descobrir a causa da explosão dos soldados.

Sobre o autor:

Nasceu como Antônio Emílio Leite Couto em Beira, Moçambique, em 1955. O nome “Mia” é proveniente de sua paixão pelos gatos e pelo fato de seu irmão menor, em tempos de infância, não conseguir proferir seu nome corretamente.Cursava Medicina, quando logo iniciou os primeiros trabalhos no Jornalismo. Abandonou a medicina, e passou a se dedicar inteiramente à escrita.

Mia Couto tornou-se diretor da Agência de Informação de Moçambique e logo passou a se dedicar à biologia. Tem suas obras traduzidas para o alemão, francês, espanhol , catalão, inglês e italiano.
Iniciou seus lançamentos literários através da poesia , publicando o livro “Raiz de Orvalho” em 1983. Já havia participado de uma antologia poética, em edição do Instituto Nacional do Livro e do Disco, com a participação do poeta moçambicano Orlando Mendes.

Mia Couto é filho de portugueses, e era militante da Frente de Libertação de Moçambique, lutando pela independência de seu país entre 1964 a 1974. Ajudou a compor o hino nacional moçambicano, e trabalhou para o governo durante a guerra civil culminada no período de 1976 a 1992.

Tornou-se no primeiro africano a vencer o prêmio União das Literaturas Românticas, recebido em Roma. A obra “Terra Sonâmbula” Foi eleita um dos 12 melhores livros de todo continente africano no século XX.

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